Autor: Orivaldo Guimarães de Paula Filho
O Brasil registrou em 2025 um recorde histórico em afastamentos de trabalhadores por transtornos mentais de mais de quinhentos mil segundo dados do INSS, considerando que muitos servidores públicos não são filiados ao Regime Geral de Previdência Social acreditamos que este número pode ser grande também na Administração Pública. Sendo assim, entendemos que o bem-estar psíquico dos servidores está no topo das discussões e deve ou deveria estar entre os pontos principais das pautas da gestão interna dos órgãos públicos.
Os servidores que ocupam cargos ou funções de gestão, os denominados cargos em comissão ou funções gratificadas, precisam entender que um dos mais importantes fatores de pressão atualmente nos órgãos públicos são as questões de saúde mental, que estão à frente de problemas com produtividade, qualidade dos serviços prestados e, até mesmo, da adoção de novas tecnologias.
Neste contexto entendemos que a implantação dos preceitos ditados pela Norma Regulamentadora nº 1 – NR-1 com as diretrizes gerais sobre segurança e saúde no trabalho e que encontra-se em vigor desde 26 de maio de 2026 tem papel fundamental na identificação e gestão dos fatores de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Deste modo, as situações que favorecem o surgimento do estresse crônico, as situações de assédio moral, a sobrecarga emocional e o clima organizacional passam a integrar as políticas de SST dos órgãos públicos colaborando para uma melhor gestão destes aspectos.
A administração das cargas de trabalho eliminando jornadas extensas e exaustivas, a criação e manutenção de canais de escuta e a execução de políticas contra os diversos tipos de assédio são algumas das medidas necessárias e que passam a fazer parte das situações cobradas pela norma, no entanto, entendemos que não apenas os mecanismos formais, mas as atitudes dos gestores na administração das rotinas diárias de trabalho também fazem a diferença para promover o bem-estar geral dos servidores, a eliminação dos fatores de riscos psicossociais e a garantia de uma ambiente de trabalho equilibrado e saudável.
Para auxiliar os gestores nesta jornada de melhoria do ambiente de trabalho entendemos que apenas o planejamento técnico não é suficiente precisamos de estabelecer um marco de cuidado, de pertencimento e de alinhamento emocional, porque não existe órgão público forte se seus servidores estão fragilizados, desengajados, estes precisam sentir que são vistos, acolhidos e preparados, assim podemos utilizar este check list:
- Como os servidores do órgão público estão emocionalmente?
É importante lembrar que o ponto de partida não deve ser o calendário, mas a condição emocional dos servidores.
- Existe espaço para a escuta antes da apresentação das demandas do trabalho?
Escutar os servidores em primeiro lugar e depois, determinar as atividades, deste modo a ordem muda o impacto.
- O planejamento do trabalho está pautado em cima de cuidado, vínculos e convivência?
Se somente falamos de metas, de conteúdos, de prazos e outros assuntos de gestão, parece que algo importante ficou de fora.
- Os gestores de todos os níveis estão preparados para orientar os servidores com segurança emocional?
Secretários, Diretores, Chefes, Encarregados precisam estar fortalecidos antes de tentar fortalecer os servidores, não é possível cuidar ou escutar sem preparo e sem apoio.
- Existem momentos de encontro humano ou apenas sobre o trabalho?
Se a equipe não se reconhece não consegue trabalhar alinhada.
- A cultura organizacional está bem definida e clara para todos e, em especial, para os novos servidores?
Novos servidores iniciam seus trabalhos com melhor ânimo quando sabem que o órgão público pensa, sente e cuida.
- Existe espaço para falar sobre desafios reais e não apenas sobre o que é ideal?
A sinceridade no dia-a-dia por parte dos gestores e dos servidores cria confiança e esta cria equipes fortes.
- Existe clareza sobre os canais de escuta, de acolhimento e de prevenção no órgão público?
Se os fluxos são simples e estão bem sinalizados tendem a prevenir e evitar crises.
- O planejamento do trabalho e seus desdobramentos na rotina do órgão público são favoráveis ao fortalecimento de vínculos entre os gestores e os servidores?
Sem vínculos não existe clima e sem clima não existe aprendizagem e execução de atividades de maneira sustentável.
- A formação técnica-administrativa-operacional está acompanhada de formação humana?
As atividades técnicas-administrativas e operacionais dos cargos não são auto-realizáveis, sempre precisam de pessoas preparadas.
- Como acompanhamos o clima emocional durante o ano?
É preciso entender que o cuidado não é um evento programável, mas um processo contínuo.
- Ao final do processo de planejamento do trabalho, os servidores sentirão mais peso ou mais pertencimento?
Entendemos que esta é uma pergunta fundamental, tendo em vista que o planejamento do trabalho também deve cuidar e devolver o sentido ao trabalho realizado.
Neste check list não existem respostas corretas ou verificáveis, mas alertamos que não é apenas realizar o planejamento do trabalho, é preciso organizar pessoas, vínculos, expectativas e cuidados institucionais, é preciso atentar que o planejamento do trabalho é a semente da cultura organizacional e se a semente for de boa qualidade os frutos dela decorrentes irão florescer.
Caso seja de seu interesse:
Curso sobre riscos psicossociais e a atualização da NR-1 específico para Administração Pública
Curso sobre assédio moral e sexual no âmbito da Administração Pública
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Orivaldo Guimarães de Paula Filho
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