Um guia para o Departamento Pessoal blindar a organização em dia de jogo e votação
Autor: Orivaldo Guimarães de Paula Filho
O ano de 2026 promete ser atípico e desafiador para os profissionais que atuam no Departamento Pessoal, já que teremos a realização da Copa do Mundo de Futebol coincidindo com o período das eleições para cargos executivos e legislativos estaduais e federais.
Enquanto a seleção brasileira entra em campo, o Brasil vai às urnas e nesse clima de paixão nacional e dever cívico, as organizações públicas precisam manter a produtividade, a harmonia e, principalmente, a segurança jurídica.
Para o Departamento Pessoal, isso significa navegar por um emaranhado de leis trabalhistas, específicas e eleitorais, sendo que a ausência de uma estratégia clara pode resultar em passivos trabalhistas, caos operacional e danos à reputação. O segredo para uma travessia segura está em três pilares:
- organização inteligente de escalas
- prevenção rigorosa contra assédios
- blindagem contra erros operacionais.
Organização de escalas – horários, folgas e compensações
A legislação trabalhista ou mesmo a legislação específica da Administração Pública não obriga a liberação de servidores durante o período dos jogos da Copa do Mundo de Futebol. No entanto, a realidade social e a necessidade de manter um bom clima organizacional exigem planejamento.
A decretação de ponto facultativo ou a compensação prévia dos períodos são os melhores caminhos, e que devem ser realizadas com antecedência e, caso a opção seja a compensação será preciso verificar como deve ser organizada para que não traga nenhum prejuízo para a organização e também para os servidores. Este ato deverá prever regras claras para todos os jogos da seleção brasileira, evitando decisões individuais e subjetivas.
Modelos de escala de trabalho inteligentes também podem ser implementados nos jogos em horário de trabalho, caso ocorram, as opções podem ser a liberação total com compensação de horas, através de banco de horas, caso já esteja implantado ou a pausa para assistir ao jogo no local de trabalho, com retorno imediato às atividades. Para os serviços essenciais, a escala de revezamento é crucial, garantindo que sempre haja uma equipe mínima de prontidão.
Se a opção for pela compensação dos horários de trabalho, formalize de maneira clara o prazo para que essas horas sejam quitadas, o ideal é compensar em período anterior, mas caso não seja possível, pode ser estabelecido um prazo de até seis meses, respeitando limites diários de duas horas, sendo recomendável a utilização de banco de horas que é o sistema mais eficiente e moderno para estas situações.
É muito importante a comunicação de como será o tratamento deste período na organização, após a publicação do ato normativo é fundamental que sejam publicadas as escalas de trabalho com antecedência. Utilizando murais, e-mails corporativos e comunicados internos e definindo claramente as conseqüências para ausências não justificadas, além de possíveis medidas disciplinares. A transparência na comunicação da escala de trabalho é o primeiro passo para evitar acusações de perseguição ou favorecimento.
Prevenção ao assédio moral e eleitoral: o campo minado das paixões
A combinação de futebol e política no ambiente de trabalho costuma ser um barril de pólvora, que começa como uma “zoação” entre torcedores ou uma “discussão saudável” sobre candidatos pode rapidamente se transformar em assédio moral ou mesmo em crime eleitoral, com graves implicações para a organização e também para o gestor.
No caso do assédio eleitoral é preciso estabelecer “Tolerância Zero”, tendo em vista que a legislação eleitoral proíbe expressamente que gestores públicos ou mesmo servidores coajam, intimidem ou ofereçam vantagens para que servidores votem em determinados candidatos. Isso inclui:
- Promessas de nomeações ou ameaças de transferências ou demissões baseadas em resultado eleitoral.
- Exigência de uso de uniformes ou adesivos de campanha eleitoral.
- Realização de comícios ou reuniões políticas “obrigatórias” no local de trabalho.
O Departamento Pessoal deve emitir um comunicado oficial, com aval da Secretaria Municipal, reforçando a neutralidade da organização e o respeito à liberdade de voto de cada um.
Outro ponto importante a ser considerado é o assédio moral e esportivo, como piadas depreciativas, apelidos constrangedores e exclusão de colegas por conta de resultados de jogos configuram assédio moral. A rivalidade é bem-vinda, o desrespeito, não. A organização responde objetivamente por atos de seus gestores, mas também pode ser responsabilizada se, avisada sobre condutas abusivas entre servidores, permanecer inerte.
Ação preventiva do Departamento Pessoal
Programas de treinamento rápido, promovendo reuniões com gestores e equipes sobre os limites das brincadeiras, os conceitos de assédio moral e a gravidade do assédio eleitoral.
Código de condutas, reforçando as políticas internas de respeito interpessoal, deixando claro que desvios serão tratados como infrações disciplinares graves.
Ouvidoria ou canal de denúncias ou de escutas, é importante que o canal esteja ativo, acessível e amplamente divulgado. A existência de um canal eficaz é a principal defesa da organização para demonstrar que age com diligência em casos de assédio ou mesmo de abusos.
Erros operacionais e segurança jurídica, este é o momento da precisão absoluta, não temos a prerrogativa do erro.
Em meio ao clima de exceção, a rotina do Departamento Pessoal não pode parar, pelo contrário, o risco de erros aumenta exponencialmente e a segurança jurídica se torna o ativo mais valioso.
Folha de pagamento blindada, este é o ponto mais crítico, devido as particularidades das escalas de trabalho e compensações por ocasião dos jogos da Copa do Mundo de Futebol e das possíveis ausências para votação não podem gerar erros nos lançamentos.
No dia da eleição, é preciso ter claramente a percepção de que o voto é um dever cívico e que a ausência para votar e justificar não pode gerar desconto salarial para os servidores que estiverem em atividades que exijam plantão. Os ajustes de jornada desse dia precisam ser tratados separadamente das possíveis compensações do período da Copa do Mundo de Futebol.
As faltas, os atrasos e até mesmo os abandonos dos postos de trabalho precisam ser avaliados em tratados com rigor e transparência, tendo em vista que com a natural flexibilização, alguns servidores podem se exceder. O Departamento Pessoal precisa documentar e lançar cada hora-extras, cada falta e cada atraso de forma individualizada e com o código correto, a clareza nos registros é a única prova em um eventual litígio futuro.
A importância de manter um checklist de controle, para isso é fundamental a criação de um documento-mestre para cada dia de jogo e para o dia da eleição, contendo:
- Lista de servidores por escala – trabalho normal, compensação, folga, férias e outras situações funcionais;
- Horários de início e término das jornadas especiais, caso tenha sido esta a solução adotada;
- Registro de ponto de cada servidor, fundamental para o controle de entradas e saídas com valor legal;
- Cálculos dos saldos do banco de horas gerados a cada dia, principalmente se a solução adotada foi a compensação posterior de horas de trabalho.
Utilizar a tecnologia como aliada, verificando se o sistema de ponto eletrônico permite a criação de controle de jornadas pré-definidas para os dias de jogos e eleição, automatizando os cálculos e reduzindo drasticamente a chance de erro humano na digitação manual, sendo que a auditoria pós-período de exceção, revisando todos os lançamentos daquele período, é uma prática recomendada.
O segundo semestre de 2026 será uma verdadeira prova de fogo para o Departamento Pessoal, não se trata apenas de torcer pela seleção brasileira ou exercer a cidadania, trata-se de gerir pessoas e riscos em um ambiente de emoções à flor da pele. O Departamento Pessoal que se preparar com antecedência, investindo em comunicação clara, acordos e atos legais sólidos e precisão operacional, não só protegerá a organização de possíveis passivos, mas também fortalecerá sua posição como área estratégica para a sustentabilidade organizacional.
E que vença o melhor — em campo, nas urnas e na gestão.
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Orivaldo Guimarães de Paula Filho
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